A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

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domingo, 1 de agosto de 2021

é tão cansativo

há pessoas que carregam uma tristeza dentro delas. escondida, a tristeza dorme num pregue da orelha ou num sinal da pele. de vez em quando, de preferência à noite, a tristeza, esse bichinho, acorda, mexe, e a pessoa esquece sorrir. o bicho da tristeza desacorda a pessoa dela própria, do que foi, de tudo o que está por ser. e assim a pessoa fica cansada, estourada de tanto abrir o nevoeiro à machadada, apenas para, no fim do dia, voltar a dormir, e no dia a seguir voltar a acordar para o mesmo nevoeiro, no mesmo lugar, com o mesmo machado. é tão cansativo.

sábado, 30 de novembro de 2013

The end

Tudo o que começa, termina.
Há coisas urgentes, e falta o tempo para elas.
A poesia é uma, mas talvez doutra maneira.
Talvez nunca mais; talvez amanhã.
Talvez o agora morra para sempre
e renasça noutro lar.




quarta-feira, 27 de novembro de 2013

quando me dizes

quando me dizes "mulher"
há tempo que afastaste de mim o
ser amante

quando me dizes "preto"
há tempo que o teu coração
é baço

quando me dizes "carne"
há tempo que o meu coração
não bate

quando me dizes "peixe"
há tempo que esqueces que o meu corpo
também sente

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

ruas

rica em lábios como a branca de pedra
corro pela cidade com as vestes levantadas

não me contes que foste à praia
o nosso plano era a montanha
e as árvores estão frias

corro pela cidade enlouquecida
as cores que uso escondem a vontade
de ficar sentada às tardes

é tudo tão simples e tão difícil
mergulho nas pedras da calçada
nas montras onde creio ver-te

sussurro palavras fechadas como pétalas à noite
ninguém entende o linguajar do pólen descansado
a não ser nós - estratosféricos

corro pelas ruas - insisto em bater os pés descalços
sorrio às pessoas que não entendem o meu passo
acham que dança é repetição; não concordo

sigo em frente sem parar e não estás
rio, conto-me esta história como sempre
invento a tua nuca os teus pés

os meus olhos não precisam da presença
as ruas foram sempre, comigo, acolhedoras
e os espelhos amigos generosos


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

deixar

atrever-se a ficar
como o mel entre os dedos

ficar no campo de batalha
e de riso em riste

ouvindo cada inseto
sentindo cada cheiro

atrever-se a ficar
entre os corpos sedentos

e não beber nem amamentar
almas desdentadas pelo ódio

ficar nu perante os olhos olbíquos
que não atingem a verdade

deixar os outros ficarem com o corpo
a ossada com que se diverte o senhor obscuro

que habita todo o corpo que o engorda
inclusivamente o teu quando o alimentas

deixar os outros dançar com a casca
como se nada fosse, mesmo nada

deixar os outros acreditar que é verdade
que estão mesmo a brincar contigo

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

matemática

fecha-se o círculo
que nunca esteve aberto
a mudança é a noção de phi
os pontos são os mesmos mas
habitados pela consciência espiral

enquanto nós, pobres coitados,
achamo-nos pontos
perdidos à procura de um eixo onde engajar
e formar uma recta que seja
alinhar numa função de crescimento >0<
ou então uma parábola
uma infinita procura do regresso:
ai, se o infinito fosse curvo
ai, se o tempo se dobrasse
para regressar ao ponto onde o desastre começou
ai, se a mentira fosse verdade

mas nós, pobres coitados,
achamo-nos pontos de valor = 1
enquanto somos vectores
cortes entre planos
e x e y são apenas referências
assim como não somos os nossos nomes
que foram esquecidos e suplantados
por coordenadas que confundem o plano:
ai, se a matemática não fosse perfeita
ai, se nós não fôssemos tão esquecidos

sábado, 19 de outubro de 2013

amizade

sabemos como percorrer silêncios:
a amizade é uma coisa antiga e calada
habitada por olhares longínquos
de minhocas e de pássaros migrantes

a cada pouco nos entram pela porta
as lembranças e os risos guardados
em caixinhas de lata antigas
impõe-se o calor da sobremesa
as intenções nuas e mornas como o chá

a vida está em dia, posta a mesa
para as mãos vazias com que levemente
nos tocamos os ombros, os braços
há viagens, paragens, casas e quedas à espera
há a lareira nos olhos, há a porta meio aberta



segunda-feira, 30 de setembro de 2013

círculos concêntricos

levantar-se é acender as velas da esperança

por cada cabeça que roda há sete que acordam como dragões antigos

nós somos golfinhos a cantar pelos mares do mundo uma música antiga e nebulosa

os tempos não enganam:
somos filhos do desígnio aberto das águas
fluimos em direção ao epicentro do amor sem reservas

as gargantas ecoam numa frequência que acorda os instintos leves
e nós, outrora carnívoros corpos armados em árvore
acordamos para o que estávamos à espera de lembrar
abrimos os olhos para o dejà vu que inventamos a cada segundo
e sonhamos sonhos lúcidos como tochas na caverna
e cantamos em frequências impossíveis que reduzem ao nada
o calor infernal da distância onde embalamos a cegueira
que alimenta os círculos concêntricos da fome e a guerra




nacos

a noite não sabe a noite. caminho pelas costas das linhas porque o longe hoje é uma utopia. pergunto-me onde estás. em casa, sim, mas onde estás. em ti? em mim? talvez na casa das palavras brancas, agora que elas se empilham para nos receber um outro dia cheio de sol e laranjas. empilho palavras como lenha para a lareira. o inverno chega e a estrada está cortada. sabemos como esperar. o silêncio é sagrado, mas cúmplice em presença. na ausência, o silêncio é como o gelo onde uma mãe ursa procura o filhote caído. corta as mãos, afronta, serve o coração em nacos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

qué pena que tus ojos

hoje lembrei-me que tenho um sonho
passa um mocho calado
passa uma música de lenço branco

qué pena que tus ojos
qué pena que tus manos

hoje lembrei-me que está inverno
cada folha desafia o solo
cada fruto tem seu tempo

qué pena que tus ojos
qué pena que tus dedos

hoje lembrei-me que está noite
faz quase lento
faz quase aguado

qué pena que tus ojos
qué pena que tus labios

hoje lembrei-me que sou de prata
somos pouco sem moeda
somos nada sem trocados

qué pena que tus ojos
qué pena que tus pasos

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

transparente

amanheço quieta, silenciosa como uma cobra inofensiva. sem dentes, cilíndrica e mole. escorregadia como os sonhos ao acordar. transparente ao olho do dia. o único som é o crepitar do sol por trás da montanha; respiro. não: és tu quem respira. não saberia dizer. são tantos poros. acordo à música dos ossos e as correntes que te habitam. é verão, a luz ainda não enfureceu. há um canto onde posso ficar morna, acolhida como cão vadio ou peregrina, no teu encosto. no teu encalço adormecido, no do teu sonho, no dos lábios fechados, no das narinas que levemente lembram que estás vivo.

acácia

pensaste na espera
como um brilho no olho
de quem descobre a carta que falta ao jogo

não na esperança estripada
de quem espera sem saber
por quê
por quem
por quando

pensaste que o guizo dos meus dentes
era perene como as folhas das acácias

pensaste bem
esqueceste pensar a latitude e longitude
dos meus ramos

pensaste nos tempos em que as folhas
cresciam sem medida
esqueceste regar as raízes em silêncio

pensaste na cortiça mole e perfumada
como os lençóis secos ao sol
esqueceste o regador das noites mornas

pensaste nas flores que precedem os frutos
cortaste-as para as levar num vaso
para uma mesa grande
de uma casa grande
com janelas grandes
perto de um mar grande

foi assim que
perto de um mar grande
numa mesa grande
de uma casa grande
com janelas grandes

os frutos não aconteceram

húmus II

o teu torso de pão. os teus braços. a noite. as horas em que te sigo os passos do coração brando. o jeito mole em que respiras. a quietude pelas horas caladas. a casca onde assentam as palavras que nos esperam. o sonho de regressar ao pão da manhã. os olhos quase fechados por onde escoam os desejos. o quase adormecer da escrita nos dedos entrelaçados. o já, o acordar no embalo de um cheiro próximo ao húmus.

Carta a um poeta


Sabes, poeta,

Por vezes eu fico a pensar e ocorrem-me as palavras gastas pela rua. Algumas vezes fico muito triste: vejo nelas os rasgões que outrora lhes fizemos, vejo as palavras mapeadas de cicatrizes, e as minhas mãos tremem como as de um carrasco arrependido.

Sabes, poeta, acordo de manhã e acontece uma palavra como "casa" ou "quarto", ou "rua", e todas elas falam de nós. Acontece a palavra "voo" e ela fala de nós. Acontece a palavra "silêncio", e ela fala de nós.

Mas sabes, poeta, cada vez mais fico a pensar nas palavras por gastar. Fico a pensar que "Sena" será para nós uma palavra cheia, como as telas de Redon. Fico a pensar em "voo" e oiço o som das nossas asas a bater antes de o sol sair. Fico a pensar que houve um dia de palavras onde os corpos nem eram chamados a existir, e foi leve. Um dia em que fazia sol, ou chuva, ou sonhos ensolarados numa casa térrea.

Sabes, poeta, a vida é um ciclo de morte e renascença, e é imprescindível lavar as palavras no rio antes de regurgitar o verbo da génese de novo. Não que queira voltar aos dias passados, às palavras escondidas nas pedras da calçada. Ou seguir trilhos mascados, nada disso. Antes quero regressar ao cheiro dos livros na varanda. Sentir que posso sentar ao teu lado, poeta, e abrir um livro numa página qualquer, e ler para ti em voz alta, e sentirmos, falarmos.

Sabes, poeta, eu já não tenho varanda, tenho só uma marquise redonda e tenho sonhos que, como ela, circulares, aspiram a construir qualquer coisa parecida com a perfeição.

Sabes, poeta, eu já não tenho varanda, mas tenho olhos para olhar para o horizonte.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

goles

A noite é a queda. Hoje caem faíscas sobre o céu da minha casa. É a montanha acesa, e o coração. Hoje é amanhã, onde a beleza que as tuas mãos idealizam há de me tomar o rosto branco. Amanhã é uma parede e a tua presença longínqua. Amanhã o dia voa em cores pelas veias da luz, e eu serei uma casa onde os hóspedes te bebem a pequenos goles, como um chá antigo e exótico, amassado pelas minhas mãos antes da água.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

quando era

quando eu era o vento. aquele dia. aquelas folhas em bronze entre os olhos que se escondiam. quando eu era o vento, e zunia os silêncios. e pela boca me saíam borbulhas de tempo onde passeávamos, como porquinhos-da-índia em rodas ilusórias. quando eu era o vento, e as borbulhas espocavam, e nunca mais havia passeio de sabão.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

goiamum

alma-dia. amanheço à procura do pão para hoje. salto em altura sobre o rio, sou das águas calmas a mãe segura de seios grandes e quadris-alicerce. da praia ao sertão e de regresso mimetizada no mangue. sou uma térmite do dia-a-dia, casa no ar e pés no chão, grão e fruta para o inverno. sou um goiamum: buraco onde me guardo que protege o mundo dos meus tenazes. há a bicharia que me faz lembrar que a terra é boa porque nos aconchega. há o húmus, a minha fé. há a praia ao pé de nós, um mar que lambe os pés da terra que nos dá de comer.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

aquática IV

Viajo. Sou uma molécula de plâncton a alimentar as veias da estrada. Acumulo verbos, palavras carentes como bairro-de-lata. Frentes de coração, dintéis armados em fitas de cores bravas. Conto e reconto. Luto. Quando a estrada me leva, dou em almadia. Não contorno os ventos: deixo. Vivo. Consigo. Desconsigo. Nasço.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

aquática III

Sou aquática. Sei como nadares-me. Também o mar é bravo, às vezes. Mas eu surfo-me nas ondas da emoção. Assumo o comando da verdade nua. Batem as águas com o sol. Entre as profundezas frescas e o céu se levanta um templo de beleza. É o olho do furacão e a calma do recife. É o compasso da espera, a cadeira de baloiço na varanda, a noite, os jardins ocultos que esperam passos para ver o fulvo acontecer.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

aquática II

atravesso-me, antes como rio. como rio nasço à verdade de esperar por uma margem aonde me desças. aonde embarques numa almadia que reconduza as águas perdidas. e nela descobrir correntes novas. profundas. carregadas de palavras e plâncton. como rio surjo do quase-nada branco de uma rocha ou uma gota de chuva até crescer em pedras e plantas aquáticas que se elevam para a tua embarcação,  protegendo-te de jacarés e quedas.