A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

alguém

subo pelas hastes, sim, a custo. como um guerreiro descubro ter sangue nas veias e cuspe na boca. há dias em que as espirais são mais antigas e phi só conta para trás em infinita corrupção da vontade, como um espelho da infância a puxar pelo caráter, esse jugo cujas setas são as memórias vertebrais, o hábito de temer de tantas maneiras como areias tem a praia, sendo que a praia não é o grão de areia, e assim os medos são todos uno. medo porque enquanto conto as areias e enterro as conchas mortas, alguém voa longe e eu sinto a penugem que deixa no caminho e se enfia nas concavidades minhas como um grito agudo, alguém que não me deixa, que não me larga, alguém que me fere à distância em que digo não de novo, alguém que foge do destino, alguém que somos todos e por isso também sou eu.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

margens

margens onde estarrecer de puro vácuo e olhar nos olhos dos outros com a distância ganha pelo coração, porque vivemos um tempo em que isto um dia são dias e não é possível esquecer que as orquídeas nascem nos troncos e nas bermas, vadias, imprevisíveis e determinadas como foguetões. por isso convocamos cada onda como um novo oceano e ouvimos palavras de mercador, por isso mergulhamos nos sonhos dos outros e nos deixamos ir na conversa dos barcos até nos encontrarmos no alto mar sem leme nem estrelas para seguir. por isso é preciso ter cuidado com os ombros, com os dedos, com as gotas de sangue que não somos mas nos doem tanto. por isso é preciso olhar para o céu e lembrar que ele não é esse, mas está lá para nós.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

validade

nada como a validade para o coração e os ossos da raiva, que são frágeis e se jogam sobre os outros como o granizo sobre a erva. chove e todos contam passados com os dedos, palavras, gritos ou dias em que tudo deu certo pelo caminho do erro. mente-se quem deita sobre o outro o olhar da ocasião sem ir ao fundo, mas também quem acha que a escada da vida não desce à noite. hoje acordamos heroínas e amanhã vilãs, prende-se a sombra às nossas asas e torna-se urgente desviver o passado erro a erro. nada como ser claro mas não alto, nada como ser pequeno e olhar em frente.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

matar ou morrer

há a crença do verbo, o salitre dos lençóis que crescem aos pés das camas perdidas nos desejos ao pé do oceano; há a vida da verdade incandescente que queima e empurra a matar ou morrer. dela me vingo, porque sei que as horas não nasceram para a violência mas mesmo assim num outro dia sem data, sem lugar nos arrumos do calendário, agrido, vingo, queimo, sangro. são doces como as tardes na praia as vozes do amanhã que se apresentam em jeito de ramos, casas a cair, encostas, pernas. tantas pernas a subir a estrada do futuro que já construímos para esquecer e recriar o pão. e assim seguimos pela estrada da ferida acima, a querer água e beber sangue enquanto julgamos que não temos culpa a não ser a da memória instalada nas células, na nuca dolorida pelo ego, essa criança louca que nos governa pelos cabelos e a quem sempre falta algo.

mochos

Derrotamos os anjos do frio enquanto os corações se batem em retirada até vencer pelo vácuo as escalas programadas, firmes e sem despertar a distância. Somos peixes num aquário de paredes mates, tu, eu, todos os que na ilusão da liberdade abrem os olhos de manhã e acreditam que essa estrela é mesmo Sírio, que a praia é feita de areia quase branca e o chá já está morno, assim sem mais nada, deixando tudo acontecer sem ninguém desmentir a chuva, os motores que esquentam a cidade, as estradas como veias grossas. Acordamos quando adormecemos, por isso, apesar de escravos sem remédio sabemos que só o coração nu atravessa as grades invisíveis e nos torna livres, por isso somos como o mocho numa noite sem estrelas, por isso voamos sobre os corpos sem ninguém dar por nós, de asas abertas e olhos escancarados, à procura do que ninguém vê.

sábado, 15 de dezembro de 2012

dentes

dentes como quartzos, como pedras rosetas numa terra virgem. ligar a luz pelos poros, não há lugar fora do sorriso e as luzes fazem sentido no aconchego da boca. morna. lentos em dizer a vida porque enchem as horas sem esperas, sentado num canto a dar as boas-vindas ao minuto, dentro a correr pelas florestas caminhadas sem passos à espreita dos bichos calados, aquela criança, aquela mão que afasta a erva para conhecer o percurso dos artrópodes. dentes lúminos com que beijar palavras escondidas na idade antiga, com que dançar os silêncios espreitados do canto, a música dentro, os passeios. a clara chegada dos rios à boca da manhã, fulvo brilho da vida à espera do chá e as pedras.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

casas velhas

nós conversamos e as nossas gargantas discutem a curvatura do tempo ameno nas ruas onde as casas velhas se tornam amigos na hora da praia, do sol que nos fere a pele que lambemos com línguas pretas como asas enquanto o mundo respira só num esforço, essa diástole que nos empurra ao encontro dos outros, de pés a arrastar, as unhas encravadas na parede caiada, de boca em grito, nós, empobrecidos habitantes de uma biosfera enlouquecida que guarda a pior carta na mão de um mágico esquecido, nós, que já fomos deuses pequenos, cansados, como de sexta-feira à tarde, rígidas estátuas que convocam o medo e outros dejetos que afastem da verdade inefável da alma e o caminho do guerreiro, nós.

sábado, 24 de novembro de 2012

she things us



induz num estado de lar.

abrir-lhe as portas é crescer pelo vácuo, caminhar no púrpura até assentar na curvatura do tempo.

she things us when we think of her.

arrasta pela biosfera dos bichos mais ao rés-do-vão até estalar os ossos da gramática.

mergulher nela: ser sete cães a um posso.

não é lança em áfrica porque a terra é curta demais perante o mar amorfo do que corre pelas mãos, mole demais para lhe atirar coisas em ponta.

é bola de salão nas mãos que depositam o voo no olho

e calam

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

dentro pelas horas

dentro pelas horas implosivas, no suor que escoa pelos poros dos segundos e os torna uma amálgama de desejos a caminho de buraco negro, coração centrípeto, sargaços que nos habitam as veias quando as lembranças se apagam e inauguramos os ventos das iras e as velas da fruta que não colhemos; dentro no gosto pelo último degrau antes da queda, o sabor do segundo antes do adeus, dos rebentos que se tornam flores como mãos entre nós abertas ou acusadoras, do céu ao inferno é um passo nos olhos, chovem promessas que se tornam barcos e o oceano nunca foi amigo do homem, por isso fugimos, corremos os estores, escondemos os lençóis que ontem clareavam e fingimos tudo ser fruto do acaso, a roupa estendida e o sol que não sabe amanhecer, aquela falta de jeito nos gestos, como se nada tivesse a ver connosco, como se nunca tivéssemos comprado o bilhete a nenhures, juntos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

doma

ergo a mão e à frente dos olhos cinzentos galopam cavalos que engolem o tempo, entregam até às vísceras do poder de olhar sem entender, o desenho vivo de umas crinas que são beleza porque acompanham a equação perfeita entre a inércia e o desejo, a combinação dos músculos a salvaguardar a honra de se ser animal; assim, com todo o fogo, a imponência, a altura com que se é o próprio no momento certo, o maxilar precioso para nutrir os cascos que a custo deixam na areia um quê de esforço suave, a marca de aura do que nos é próprio. deixo no pé dos minutos o cheiro de vontade, de doma, de caça ao instinto para o tornar a maior das obras, para encaminhar o porte e o incêndio interior para a subtil porta do guerreiro sem apoquentar o coração, que é quem mais se afoita e arrisca ferver os lírios do futuro a cada instante.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

está tudo a cavalgar

está tudo atrasado, linhas, palavras, ligações. está tudo na hora perdida, espalhado nas quatro direções, está tudo a cavalgar o lombo dos mais de quatro ventos que governam o hálito que nos atravessa, tudo perdido pelos caminhos inconclusivos como romances de mãe. está tudo ausente nas minúsculas, afastado, cinzento de tanto caminhar à nevoeira, está tudo uma coisa velha entre os desejos que torna as dobradiças secas, gritantes, cantoras à revelia do que a alma pediu e não se soube dar. está tudo estendido nas tardes, na cama, como lençóis de casa velha, está tudo anacrónico como um carrossel porque não há como pôr em dia a vida sem palavras, sem linhas, sem folhas onde deixar um cuspe ou uma impressão digital que valha.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

morcegos

são as horas, os temperos. salgas-me as noites porque nelas te entro pelo sono dentro, pela cidade fora somos morcegos a testar os limites do físico, as asas, esses artefactos, essas prisões tão perfeitas, atmosféricas; batizamo-las de chuva ácida e acreditamos que os olhos existem apenas enquanto lembrança da fraqueza com que nos encontramos, assim a cada sonho um degrau na viagem a nenhures que são as mentes nossas, ou então fossem as minhas mãos delicados cogumelos a crescer-te no costado, a florir-te as axilas como se te habitassem de sempre e só neste outono breve, nesta humidade onírica que partilhamos, como se houvesse o espaço requerido para embalar os adeuses que deviam ter sido e regressam porque as contas não foram acertadas ainda; viajamos ao fulcro do desejo por chegar e sonho-te, e os teus cabelos compridos habitam-me a sala branca, chegam apanhados num molho como nos meses são os dias, assim à toa ou bissextos e tão longe dos astros, e é preciso trançar, é preciso pentear para evitar que se tornem cabelos fugazes, cadentes às noites, apenas pensados para proferir desejos e morrer na minha boca, nas minhas mãos que trançam.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

segundo sol

desatamo-nos nas trovoadas, os cúmulos-nimbo espelham as almas inexperientes. tudo o que vence o sono é borbulha e espoca entre um nós que é reconstruível a cada segundo. tudo o que sobe pelas paredes que nos afastam do desejo é simples, concatena memórias e futuro, segura o tempo pelos pulsos, sobe os segundos como degraus feitos em pó, assim nos aproximamos das águas-furtadas ao passado onde se escondem agulhas, almofadas ou fonemas esquecidos, essa bijutaria entrançada nos genes, essa espiral ascendente que nos atrai ao poço de onde fugir, está na hora do bordo de pedra onde segurar as mãos para saltar ao segundo sol de onde viemos, as horas que no fundo saltam dele ao miolo que habitamos sem saber, essa espinha onde incrustamos memórias, pedaços de osso, musgo ou água, tudo numa sopa de emoções para embalar os atos, assim como lenços agitados à toa, sem ninguém para despedir, sozinhos, tão sozinhos.

http://www.youtube.com/watch?v=6PRLjGJRbPk 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

uníssono

a luta acontece fora das horas, nas frestas do olhar, nas janelas que se abrem entre as palavras, nas culpas mudas, essas figuras inertes que se transformam em setas ou flores em nós, esses ramos que evoluem para vide e depois pedra, essa montanha que se abre para parir dentes, idiomas, lembranças com cores e cheiros, sonhos crescentes como os rebentos do amor de manhã; é assim nós, tão humanos, um relâmpago o líquido em que nadamos e hoje a noite é bela de tão escura que junta os hálitos e os acordares imprevistos ao uníssono, como uma orquestra de inconsciências nos encontramos por momentos no aquém enquanto os corpos mentem como a escrita e há qualquer coisa como a música que nos convoca para daqui a tudo, sem nós sabermos.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

apesar da cola

somos de novo, e a cada pouco, pelo fio, pelo gume do caminho com que rasgamos o tempo e o espaço, pelas horas que são e já não são. somos fumo, bárbaros pássaros sem bico, aves pelos dias que já não chegam para a desfolhada que nos espera. há a faina e cada folha é um cadáver ou uma matéria prima, ou um asteróide do início, ou uma ave amanhã. tudo se divide infinitamente até ao mais íntimo do osso, onde pensamos residir, respirar, resistir ao assédio da distância perante o outro, onde cada virtude que nos atinge é uma bala que esburaca as costas e dessangra os propósitos, cega, de tanta vontade, assassina. as balizas que nos esperam não contam bolas: assim como no circo da vida, falta nelas a rede, mas não interessa, a vida é sentar sem querer e ficar a olhar e tecer sem fios, quem sabe um dia cresça lá uma teia de aranha onde as borboletas se reproduzam apesar da cola, do silêncio à espera num canto, da proximidade da morte.

domingo, 21 de outubro de 2012

teoria da distribuição da água

tortura ou tontura, viagens de ida e volta na ordem de trabalhos, fausto e a descida, o regresso ao luminoso ponto onde os corpos de luz se tocam, se compreendem, se sabem mais perto do previsto e ainda bem, pois tudo o que é caminho é cheio de pedra e erva, água e sol, encosta e árvore; há os desertos, claro, mas o que seriam eles sem a savana; não fosse a distribuição da água tudo pareceria igual, e no entanto a terra é toda a mesma e o ar deixa-se beber em ambos e todos, dentro, fora, sístole, diástole, yin, yang, primavera, inverno, céu, inferno.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

peixes líricos

vamos pelo pé da rocha, pela mão da árvore, pelos olhos húmidos como almofadas nas noites de verão, vamos assim pelas horas azuis do amanhecer no norte, pela cor-de-laranja do adeus que dissemos ontem e hoje guardamos numa caixa para deitar ao mar junto com as palavras ainda mornas, assim, para alimentar os peixes da memória, aqueles peixes líricos que andaram connosco pelas ruas sem ninguém saber que por cima das nossas cabeças eram marés e agora é um céu aberto, limpo, aonde ir buscar nuvens ou cheiros, planetas ou aves, gente vinda do futuro que seremos, purificados na lama das paixões, apenas anjos perdidos a meio do caminho, as asas cheias de memórias e músicas embarradas, tudo para deitar fora até encontrar o esqueleto do tempo, o caroço do código nuclear, o que já foi e só está à espera de chegar ao ponto de partida para nascer à morte, ao ser.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Tudo é iluminado

A coisa mais iluminada são os cúmulos-nimbo. Pela gordura deles nos escorrega a chuva, por ela a nós encostam as flores, os anos antes delas. Projetos de pétala batem na janela, atiram-se lá de cima para parir a transcendência em modo pianíssimo ou em concerto grosso, vidro abaixo, abeirando à parede, na festa do futuro que as pessoas comuns amaldiçoam porque não sabem que da chuva da janela vem o pão que põem à mesa, e da erva que pisaram, o ar que respiram.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

varanda

é preciso ser pelas tardes da varanda, porque nela se sente o golpe do adeus calado, o gole de chuva que nos acorda para os ciclos, a breve estadia dos corpos. nunca se repete a cor, e no entanto todos os dias entardecem. é preciso dizer que somos água pelas paredes ou pó pelas estantes, pousio breve em que as horas se delatam taimadas como exércitos de gandhis, ora calando no sorriso da loucura que habitamos, ora sendo prata como o mar nas férias, ou rua como as cidades velhas no natal. é preciso ser anta como roseta, nuvem ou janela, tudo no embrulho das águas, porque nos dias breves em que os rios crescem nascem deusas e as montanhas transparecem ventres enquanto nós, condenados ao fim, nos atravessamos do efémero até ao enlevo.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

fomes

os degraus do tempo crescem baixo os pés dos mortais enquanto as teias do tonal crescem sobre as almas e as envolvem na mais secreta escuridão, na mais obtusa das memórias, no mais perverso dos jogos, que é o xadrez da vida, a matriz de cálculo perfeito onde nos movimentamos como cobaias, felizes cachorros prontos a ser vendidos a um amo que confunde amor e posse. enquanto isso, as palavras jorram por entre a saliva, por entre os dentes e a língua sem licença e encostam às paredes porque são palavras cansadas como anteontem ou hiperbólico, tudo num bípede turbilhão de sístole e diástole que se desencontram às noites e esbarram ao meio-dia como o sono não dormido ou a vigília indefesa perante os monstros que nos tornamos, perante a luta em que abrimos o dia para arrancar um sorriso que seja ao empregado de mesa ou o carteiro, porque há tantas fomes como pessoas e tantos sonhos como corações.