A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

terça-feira, 15 de outubro de 2013

azul

clara como las nubes
azul como lo que no quieres
no buscas
no sabes que existe
no te sostengo entre mis brazos porque
a qué conjugar verbos efímeros
pudiendo sonreír con tus recuerdos
vertidos en mis sueños como en un contáiner
porque soy casa amiga y quieta

a qué levantar sábanas o reír
en tus dientes
o recordar gestos o palabras que no tienen dónde
caerse muertos

tú cantas cada mañana
cantas como lo que no sabes
como lo que no tienes o quieres
por eso tu voz es clara y escondida
y viene como de una esquina antigua
en una casa abandonada
donde juegan aún los espíritus de los niños que
ya no somos
y duermen en ajadas camas
los sueños que ya no tenemos

tú cantas cada mañana
nítido, fuerte,
desde el corazón de tu jaula

domingo, 6 de outubro de 2013

el suelo

a cada rostro los días se nos adivinan entre las líneas
escondidas entre ojo y ojo
me vuelvo y me miras
lo sé pero somos lejos

aquí, toda palabra es un señuelo
no tengo tiempo para pájaros
mis días son repletos como bolsillos
de un niño a la hora del recreo

tú sobrevuelas feliz sin rumbo
tu hábitat de nubes de ceniza
tu circular pedazo de cielo

yo vivo aquí, abajo, felizmente lenta
blanca y desnuda asisto al invierno
como la lombriz, callo y sigo preparando el suelo

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

círculos concêntricos

levantar-se é acender as velas da esperança

por cada cabeça que roda há sete que acordam como dragões antigos

nós somos golfinhos a cantar pelos mares do mundo uma música antiga e nebulosa

os tempos não enganam:
somos filhos do desígnio aberto das águas
fluimos em direção ao epicentro do amor sem reservas

as gargantas ecoam numa frequência que acorda os instintos leves
e nós, outrora carnívoros corpos armados em árvore
acordamos para o que estávamos à espera de lembrar
abrimos os olhos para o dejà vu que inventamos a cada segundo
e sonhamos sonhos lúcidos como tochas na caverna
e cantamos em frequências impossíveis que reduzem ao nada
o calor infernal da distância onde embalamos a cegueira
que alimenta os círculos concêntricos da fome e a guerra




nacos

a noite não sabe a noite. caminho pelas costas das linhas porque o longe hoje é uma utopia. pergunto-me onde estás. em casa, sim, mas onde estás. em ti? em mim? talvez na casa das palavras brancas, agora que elas se empilham para nos receber um outro dia cheio de sol e laranjas. empilho palavras como lenha para a lareira. o inverno chega e a estrada está cortada. sabemos como esperar. o silêncio é sagrado, mas cúmplice em presença. na ausência, o silêncio é como o gelo onde uma mãe ursa procura o filhote caído. corta as mãos, afronta, serve o coração em nacos.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

qué pena que tus ojos

hoje lembrei-me que tenho um sonho
passa um mocho calado
passa uma música de lenço branco

qué pena que tus ojos
qué pena que tus manos

hoje lembrei-me que está inverno
cada folha desafia o solo
cada fruto tem seu tempo

qué pena que tus ojos
qué pena que tus dedos

hoje lembrei-me que está noite
faz quase lento
faz quase aguado

qué pena que tus ojos
qué pena que tus labios

hoje lembrei-me que sou de prata
somos pouco sem moeda
somos nada sem trocados

qué pena que tus ojos
qué pena que tus pasos

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

transparente

amanheço quieta, silenciosa como uma cobra inofensiva. sem dentes, cilíndrica e mole. escorregadia como os sonhos ao acordar. transparente ao olho do dia. o único som é o crepitar do sol por trás da montanha; respiro. não: és tu quem respira. não saberia dizer. são tantos poros. acordo à música dos ossos e as correntes que te habitam. é verão, a luz ainda não enfureceu. há um canto onde posso ficar morna, acolhida como cão vadio ou peregrina, no teu encosto. no teu encalço adormecido, no do teu sonho, no dos lábios fechados, no das narinas que levemente lembram que estás vivo.

acácia

pensaste na espera
como um brilho no olho
de quem descobre a carta que falta ao jogo

não na esperança estripada
de quem espera sem saber
por quê
por quem
por quando

pensaste que o guizo dos meus dentes
era perene como as folhas das acácias

pensaste bem
esqueceste pensar a latitude e longitude
dos meus ramos

pensaste nos tempos em que as folhas
cresciam sem medida
esqueceste regar as raízes em silêncio

pensaste na cortiça mole e perfumada
como os lençóis secos ao sol
esqueceste o regador das noites mornas

pensaste nas flores que precedem os frutos
cortaste-as para as levar num vaso
para uma mesa grande
de uma casa grande
com janelas grandes
perto de um mar grande

foi assim que
perto de um mar grande
numa mesa grande
de uma casa grande
com janelas grandes

os frutos não aconteceram

húmus II

o teu torso de pão. os teus braços. a noite. as horas em que te sigo os passos do coração brando. o jeito mole em que respiras. a quietude pelas horas caladas. a casca onde assentam as palavras que nos esperam. o sonho de regressar ao pão da manhã. os olhos quase fechados por onde escoam os desejos. o quase adormecer da escrita nos dedos entrelaçados. o já, o acordar no embalo de um cheiro próximo ao húmus.

Carta a um poeta


Sabes, poeta,

Por vezes eu fico a pensar e ocorrem-me as palavras gastas pela rua. Algumas vezes fico muito triste: vejo nelas os rasgões que outrora lhes fizemos, vejo as palavras mapeadas de cicatrizes, e as minhas mãos tremem como as de um carrasco arrependido.

Sabes, poeta, acordo de manhã e acontece uma palavra como "casa" ou "quarto", ou "rua", e todas elas falam de nós. Acontece a palavra "voo" e ela fala de nós. Acontece a palavra "silêncio", e ela fala de nós.

Mas sabes, poeta, cada vez mais fico a pensar nas palavras por gastar. Fico a pensar que "Sena" será para nós uma palavra cheia, como as telas de Redon. Fico a pensar em "voo" e oiço o som das nossas asas a bater antes de o sol sair. Fico a pensar que houve um dia de palavras onde os corpos nem eram chamados a existir, e foi leve. Um dia em que fazia sol, ou chuva, ou sonhos ensolarados numa casa térrea.

Sabes, poeta, a vida é um ciclo de morte e renascença, e é imprescindível lavar as palavras no rio antes de regurgitar o verbo da génese de novo. Não que queira voltar aos dias passados, às palavras escondidas nas pedras da calçada. Ou seguir trilhos mascados, nada disso. Antes quero regressar ao cheiro dos livros na varanda. Sentir que posso sentar ao teu lado, poeta, e abrir um livro numa página qualquer, e ler para ti em voz alta, e sentirmos, falarmos.

Sabes, poeta, eu já não tenho varanda, tenho só uma marquise redonda e tenho sonhos que, como ela, circulares, aspiram a construir qualquer coisa parecida com a perfeição.

Sabes, poeta, eu já não tenho varanda, mas tenho olhos para olhar para o horizonte.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

goles

A noite é a queda. Hoje caem faíscas sobre o céu da minha casa. É a montanha acesa, e o coração. Hoje é amanhã, onde a beleza que as tuas mãos idealizam há de me tomar o rosto branco. Amanhã é uma parede e a tua presença longínqua. Amanhã o dia voa em cores pelas veias da luz, e eu serei uma casa onde os hóspedes te bebem a pequenos goles, como um chá antigo e exótico, amassado pelas minhas mãos antes da água.