A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

varais

pegas-me pelos varais da força de vontade. não me enfio pelas tuas mãos, que a carreira é louca e o fim um poço. pelos dedos atinjo-te nas pulsações, és táctil como abacate ou cortiça brava, justo como o fim do dia, navegado por fumaças como um barco branco a atravessar o pântano; seguras-te nos verbos como ramos porque és povoado por areias movediças, paredes e viagens de ida e volta; acreditas no mundo como um prato porque as noites são frias e a canja quente, e assim deixas-te cair pelo bordo da vida, pelo abismo da promessa, sim, essa água que escoa sem saber para onde. sabes da existência de sóis interiores mas só num canto de ti os encaras, numa cave onde te guardas das estrelas e as fontes, tal é a necessidade de olhar para a luz e não ficar perante ela sozinho, nu e de joelhos. por isso encostas o corpo à árvore da vida, buraco a buraco os teus pés no tronco, mão a mão e é tão fácil seguir-te o rasto pelas veias da palavra, sempre acima, sempre em frente, sempre.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

no corpo tudo são maquinismos

é o voo rasante, as curvas com que das nuvens traz um vento louco, um furacão de folhas, uma torrente de pirilampos sobre os olhos, um reflexo de qualquer coisa viva e à procura no meio da noite que habitamos, corpos feridos, corações tolhidos por línguas afiadas e desejos mortos, seguro-me porque no corpo tudo são maquinismos e mal habito os ossos e os músculos se o sinto por perto; entra-me pelos pulmões como andorinha, agora sinto-o aninhar nas costelas o perigo de renovar votos de letras e cabelos; e olho para trás mas os dias não voltam e os silêncios são telhados prestes a cair sobre os meus ombros, prenuncio clavículas desfeitas em pó de talco, está na hora e rudes vozes que afastaram sóis calam e retomam o cachimbo, os grilos, o caminho de ferro.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

morcegos

são as horas, os temperos. salgas-me as noites porque nelas te entro pelo sono dentro, pela cidade fora somos morcegos a testar os limites do físico, as asas, esses artefactos, essas prisões tão perfeitas, atmosféricas; batizamo-las de chuva ácida e acreditamos que os olhos existem apenas enquanto lembrança da fraqueza com que nos encontramos, assim a cada sonho um degrau na viagem a nenhures que são as mentes nossas, ou então fossem as minhas mãos delicados cogumelos a crescer-te no costado, a florir-te as axilas como se te habitassem de sempre e só neste outono breve, nesta humidade onírica que partilhamos, como se houvesse o espaço requerido para embalar os adeuses que deviam ter sido e regressam porque as contas não foram acertadas ainda; viajamos ao fulcro do desejo por chegar e sonho-te, e os teus cabelos compridos habitam-me a sala branca, chegam apanhados num molho como nos meses são os dias, assim à toa ou bissextos e tão longe dos astros, e é preciso trançar, é preciso pentear para evitar que se tornem cabelos fugazes, cadentes às noites, apenas pensados para proferir desejos e morrer na minha boca, nas minhas mãos que trançam.

domingo, 28 de outubro de 2012

a casa

olhar para cima à procura do pé que foi, da luz que fugiu atrás do horizonte, o hálito e a escada branca, a beleza na estratégia do caracol, as cores verdes ou azuis em que um homem vê o rosto de uma mulher que ama, os corredores, as portas, os tetos que coroam os corpos à noite, os quartos onde apesar da luz acontecem histórias verosímeis, onde as vagas da vida se dissipam como o lusco-fusco, madeixas de sol pelas janelas, madeiras que deixam pegadas nos nossos pés como no fundo dos olhos, das mãos que tocam e não acreditam; e as flores, os lugares, a razão do antigo, os azulejos depositários das mãos tão amadas que é para ficar a viver nelas, a vida que sobe e desce, e volta, a torre sem marfim que sonha dentes brancos, os cabelos compridos que lá foram secos pelo sol na varanda, a água, o murmúrio das estações que passam, tanta terra atrás dos vidros partidos pelo vento, tanto amor em cada canto, tanta beleza para beber, tanto sangue para se ter, tanto olho para ver.

velejar

correm as horas e as folhas como pássaros que nos fogem das mãos, tu és um olho semicerrado que me lança um desafio, eu uma boca aberta a perseguir o vento que ultrapassa os telhados, há quem ria ao nosso lado, há quem nos olhe e nos deixe ser um sonho por um momento, há quem saiba aproveitar o vento e o frio porque a vida é um velejar os dias, encontrar ocos onde rir nas tardes e nas pedras, a vida é um cabelo despenteado e umas sombras na água, uns segundos à espera do vento mais certo, uma imagem que começa num convite espontâneo e termina numa festa sazonal, a vida são nuvens inesperadas numa poça, águas que saltar a caminho do incógnito, um salto de lado a lado da muralha ou uns corpos a espreitar; a vida, sim, é fraca e longa, e guarda nos dias frios os corações mais calorosos, os nossos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

segundo sol

desatamo-nos nas trovoadas, os cúmulos-nimbo espelham as almas inexperientes. tudo o que vence o sono é borbulha e espoca entre um nós que é reconstruível a cada segundo. tudo o que sobe pelas paredes que nos afastam do desejo é simples, concatena memórias e futuro, segura o tempo pelos pulsos, sobe os segundos como degraus feitos em pó, assim nos aproximamos das águas-furtadas ao passado onde se escondem agulhas, almofadas ou fonemas esquecidos, essa bijutaria entrançada nos genes, essa espiral ascendente que nos atrai ao poço de onde fugir, está na hora do bordo de pedra onde segurar as mãos para saltar ao segundo sol de onde viemos, as horas que no fundo saltam dele ao miolo que habitamos sem saber, essa espinha onde incrustamos memórias, pedaços de osso, musgo ou água, tudo numa sopa de emoções para embalar os atos, assim como lenços agitados à toa, sem ninguém para despedir, sozinhos, tão sozinhos.

http://www.youtube.com/watch?v=6PRLjGJRbPk 

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

quinze eme

está tanta gente nas ruas. está tudo aberto, até os peitos. está tudo largo e ensolarado como as ruas em lisboa. está tudo franco como um sorriso velho numa tarde de verão. estão as ruas ocupadas com os corpos limpos, as vozes, os jeitos inverosímeis de quem caminha em círculo e nada sabe da constante áurea. está tudo pronto, ocupado, disponível o calor no espaço entre os corpos, os cotovelos, as costas que se juntam, nas ruas. está tudo tão obscuro que está tudo prestes a jacto de vida, a morno verbo onde embalar silêncios, porque os gritos ecoam mas não destroem as pedras dos muros que nos afastam da verdade. está tudo à mostra do sexto sentido, tudo oculto aos olhos simples, tudo calculado para alimentar o monstro sem cara que nos devolve o que somos, o que fomos, as somas do passado que se transformam nesta equação macabra que descansa corpos antigos e camas na rua, como se nada fosse, como se o suor nunca tivesse sido, como se uma árvore acordasse uma manhã louca e resolvesse comer as suas raízes, assim, sem mais, e comer das nuvens, nem que o céu chovesse nitrogénio e pedras.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

uníssono

a luta acontece fora das horas, nas frestas do olhar, nas janelas que se abrem entre as palavras, nas culpas mudas, essas figuras inertes que se transformam em setas ou flores em nós, esses ramos que evoluem para vide e depois pedra, essa montanha que se abre para parir dentes, idiomas, lembranças com cores e cheiros, sonhos crescentes como os rebentos do amor de manhã; é assim nós, tão humanos, um relâmpago o líquido em que nadamos e hoje a noite é bela de tão escura que junta os hálitos e os acordares imprevistos ao uníssono, como uma orquestra de inconsciências nos encontramos por momentos no aquém enquanto os corpos mentem como a escrita e há qualquer coisa como a música que nos convoca para daqui a tudo, sem nós sabermos.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

apesar da cola

somos de novo, e a cada pouco, pelo fio, pelo gume do caminho com que rasgamos o tempo e o espaço, pelas horas que são e já não são. somos fumo, bárbaros pássaros sem bico, aves pelos dias que já não chegam para a desfolhada que nos espera. há a faina e cada folha é um cadáver ou uma matéria prima, ou um asteróide do início, ou uma ave amanhã. tudo se divide infinitamente até ao mais íntimo do osso, onde pensamos residir, respirar, resistir ao assédio da distância perante o outro, onde cada virtude que nos atinge é uma bala que esburaca as costas e dessangra os propósitos, cega, de tanta vontade, assassina. as balizas que nos esperam não contam bolas: assim como no circo da vida, falta nelas a rede, mas não interessa, a vida é sentar sem querer e ficar a olhar e tecer sem fios, quem sabe um dia cresça lá uma teia de aranha onde as borboletas se reproduzam apesar da cola, do silêncio à espera num canto, da proximidade da morte.

degraus do adjetivo

Nada sobrou dos olhos; nada a memória dos gestos, a desolação ou o adeus. Nada me toma já pela cintura da dor, perímetro hoje voltado para o mar, os afetos. Trabalho as horas como palavras, trepo pelos degraus positivos do adjetivo, pelas conjugações mestras das horas, o tapiz do tempo e os seus atos que é tapete à porta da casa do amor. Há uma janela de onde olho para o presente, uma abertura que já foi e cresceu para porta, e para arcada no terreiro do paço ou porta de Alcalá, Arco do Triunfo. Ofereço a cara e os olhos pois os deuses foram sempre exigentes de nós, tanto como generosos. Enxergo uma praia ou um jardim, algas ou flores, festa de Iemanjá, um mar que é floresta e receptáculo de gratidão ou memória, pão ou peixes, água ou fogo, vento ou sede, tanta sede.