A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

o teu lugar

entendo o teu lugar, acredita. eu entendo. brancas velas sobre o futuro. não temo o que há-de vir mas sim o que me leva dentro. claro como o céu brilha em mim um sol que produz as mais leves ondas onde embalar mãos cheias. longe mas em mim cresce um poço branco que pugna por sair e por vezes expulsa a lama que o mantinha entupido. procuro o leme que mantenha as águas limpas. sei que a lama inundou a mina noutro tempo por isso mergulho. vivo dentro da água, a vigiar os pontos fracos por onde os detritos escoam. para os manter afastados do espírito elementar onde adormece cada noite a sereia que levo dentro. entendo o teu lugar, acredita, eu entendo. e canto e cada nota é uma vontade de vencer pela beleza a aura breve em que os trovões se instalavam noutro tempo. entendo o teu lugar, acredita, eu entendo e luto sem trégua não por ti mas por mim. pelo que a mim me devo para saber ser o máximo expoente da potência aristotélica. porque só assim tu podes ganhar paz de alma e confiança. luto porque perdi o ser num buraco negro por instantes que se tornaram séculos na memória e navego assim entre duas trovoadas: a culpa e a luz. e no meio delas entendo o teu lugar, acredita, eu entendo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Dias

Há dias em que poderíamos amar qualquer um. Um caracol que aparecesse na janela, uma pedra da praia, uma erva seca, um grilo mudo.

Há dias em que fosse alguém trazer-nos um livro e ficávamos a olhar como se fosse a anunciação ou o portador do nosso obituário.

Há dias em que tudo serve para deitar o corpo ao orvalho, às margens da sombra.

Há dias de lusco-fusco e velas de barco em vento fraco, à contra-mão do orgulho de ontem.

Há dias de magoar pessoas e não saber mais como procurar a praia.

Há dias em que os sais se tornam maquilhagem das feridas mas mesmo assim tomamos banho no mar e é bom.

Há dias em que há quatro sóis e dois satélites ao dispor dos nossos olhos, mas nós ficamos a olhar para a lua porque é tão redonda e escondida.


segunda-feira, 5 de agosto de 2013

a cor dos frutos

é o calor pela fímbria do peito. a mornura silenciosa. os corpos quietos de quem não precisa. ao longe continuam as casas, os rios, as paredes. entre nós há uma falésia breve mas milagrosamente alta que só o teu passo ágil pode ultrapassar. continuo deitada sobre as verdes idades em que nos encontramos. somos da mesma estrela. ou estação. a cor dos frutos que comemos nos iguala onde não se vê, por dentro dos corpos fracos. estico a mão e sei que o teu corpo está aí,

do outro lado dos oceanos.

sábado, 3 de agosto de 2013

Amar um homem

Amar um homem que chora
Que sabe que há fraquezas que nos tornam barcos estilhaçados nos rochedos do outrem
Um homem que bebe sal sentado a uma mesa pequena
De um café pequeno
De uma vila pequena

Um homem que por vezes deixa passar um comboio
Enquanto olha para os seus pés magoados
Amar um homem que sabe que há sofrimento gratuito no mundo
E que por vezes somos nós quem descerramos o punho calado sobre o outro
Porque olhamos para um pé e perdemos o sentido da mão e os olhos
E o coração abafado

Amar um homem que às vezes cala
Quando a rua pede um grito ou uma palavra de quem é viv'alma
Que mergulha no silêncio e a cada borbulha desmente o calor de ontem

Amar um homem que sabe usar as mãos para a beleza 

Embora por vezes desça ao inferno da quietude gélida

Amar um homem que fala por dentro como falam as paredes
Aos fantasmas e às viúvas

Amar um homem que ouve a campainha tocar mas dorme
Virado para um mar que acaba em mim

Mas não me chega por não ser mão dele que os barcos
Aportam ao peirau da minha cama

Amar um homem ao longe
Atravessados de água e falta de tacto
Um homem que contém
Sob as pedras do caráter uma ilha do tesouro
Com cores, pedras e um pirata que a guarda

E mesmo assim amar um homem
À hora do almoço e de madrugada

sexta-feira, 26 de julho de 2013

lo que aflige a quasimodo

lo que aflige a quasimodo
no es la joroba
sino lo fácil que es encontrarlo cuando llueve

lo que aflige a quasimodo es
lo fácil que es rechazarlo
sin gesto    sin mirada
en la esquina más recóndita del pecho
donde no nos contamos quiénes somos
para no sabernos lisiados

lo que aflige a quasimodo es
ese hábito callado de
mirarnos desde arriba
alegrarnos de no ser él
sentirnos incluso
discretamente superiores
en los casos más extremos rayar
un esbozo de sonrisa que cortamos
y enseguida recordar
el tiempo tan malo que hace
y odiarlo un poquito en su desgracia
que nos queda lejos (creemos)
todo ello
sin que nadie lo sepa
(excepto él
que siempre lo sabrá)

lo que aflige a quasimodo
aunque se calle y se esconda
es que siempre nos servirá
en los días de lluvia
siempre asomará entre nuestras palabras
huesudas
y nuestros silencios cobardes

lo que aflige a quasimodo es
que sea tan útil tener un quasimodo
que nos ayude a olvidar
un ratito
nuestro esguince de alma

quinta-feira, 25 de julho de 2013

la ropa de mañana

es de noche
los dedos y el agua resbalan
por la frente
frente al espejo

la piel es fina como siempre
pero hoy es transparente como nunca

hoy siento
liso al tacto
el hueso bajo ella

las manchas de la piel
los diplomas del sol.
de los años. de los niños.

deslizo los dedos

dos agujeros
perfectamente situados para hacerme creer
que hay un dentro y un fuera
un yo y un tú

hoy la carne se une al hueso
pero ya no tanto como ayer

cierro el grifo

miro al suelo
de donde proviene la fuerza
que nos somete a la ilusión
del arriba y el abajo.

me seco las manos.

hay que preparar la ropa de mañana.



quinta-feira, 18 de julho de 2013

ventana

cada ventana es una puerta abierta a lo que seremos.

no te cuelgues en el alféizar, ni te alejes de la brisa que entra.

mirar y no mirar es esconderse de lo nuevo:

cierra los ojos a lo que sabes,

tiembla los labios a lo que sientes.


hay un aire que te canta cosas que aún no son.

duerme. duerme.
acuna las verdades que crecen en tus alas.

sube, baja, juega, anda.

pero ante todo
aún cuando duermes
mantén tu dedo
aunque sea el meñique
en la ventana

domingo, 14 de julho de 2013

parábola

deixa eu calcular a curva do teu tempo
caminhas como criança numa vara verde
deslizas para o chão na ponta de uma erva que não há

não somos nada para além do silêncio

traduzir em palavras o que não
num lugar em borbulhas
onde o tempo é tão só a profundidade
e os comboios da verdade se cruzam desenhando
um mapa do impossível

para terminar numa parábola
para quê procurar asa
quando o vazio é o chão perfeito para os sonhos

sexta-feira, 12 de julho de 2013

gerânios

vestes-te de cores que não há
julgo-te entre as roupas mas nadas ainda
além da fronteira que nos aproxima
nada sabes do baú onde as cores desabrocham em palavras

as minhas mãos espreitam o tacto da beleza
procuro entre os bastidores de um tempo com volume
pétalas que semeiam palavras

por vezes corto o ar porque é isso que trouxe para este mundo
o que hei de fazer se me habita um samurai

oiço a voz que convoca uma data
o teu riso distraído não deu pela iminência do encontro
sei que não tens intenções
por isso calo e espero sem projetos
um dia vamos conversar e tudo se tornará um oceano fraco

no fundo, a água é condutora
e nós somos criadores de fragrâncias
há um perfume que espera pelo tempo das palavras
há um poema que calado espera pelo tempo dos gerânios

terça-feira, 2 de julho de 2013

e é tudo

sentar quando é preciso. ter as ondas como saia ou vento quando o sol esconde a estrada.

calar sentado, ouvir, ouvir, ouvir não é esperar. espera é imagem que procura espelho. o silêncio não acolhe vidros por onde olhar para grelhas ou esquemas.

flores que se procuram, não. nem nascem. não calam, é sem voz. são a cada pouco.

casas brancas. sol.

sentar quando é preciso. virar a cabeça. ferrugem nas pedras, que beleza.

 e é tudo.