A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

tomar tu mano

"Compañera
usted sabe
puede contar conmigo
no hasta dos
o hasta diez
sino contar conmigo"

Hagamos un Trato, Mario Benedetti


Hoy quiero tomar tu mano.

Mírala bien: me refiero a tu mano.

No me refiero a seguir tu fuerza directriz,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a tener cintura breve o ser tu premio,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a llevarla a mis caderas o a mi pecho,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a que las damas somos primero,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a adornarte las palabras y los hechos,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a que me levantes si tropiezo,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a recoger limosna, a sopesar tu dinero,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a regalarte una pluma para que escribas "te quiero",
sino a tomar tu mano.

No me refiero a que me firmes un libro o me dediques un texto,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a que pruebes mi cocina y digas que está bueno,
sino a tomar tu mano.

No me refiero a esperarte sentada mientras sucede el invierno,
sino a tomar tu mano.

Tomar tu mano
y sentir en ella la frecuencia que vibra en tu aliento.

quando era

quando eu era o vento. aquele dia. aquelas folhas em bronze entre os olhos que se escondiam. quando eu era o vento, e zunia os silêncios. e pela boca me saíam borbulhas de tempo onde passeávamos, como porquinhos-da-índia em rodas ilusórias. quando eu era o vento, e as borbulhas espocavam, e nunca mais havia passeio de sabão.

domingo, 15 de setembro de 2013

elementos

confío en los elementos.
cada columna es una propuesta de derrumbe.
no insisto; es inútil fingir que no hay suelo.
no lucho; es inútil fingir que se vence.

hace sol o sombra, lluvia o seco:
porto un cuerpo, unas manos, ningún deseo.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

goiamum

alma-dia. amanheço à procura do pão para hoje. salto em altura sobre o rio, sou das águas calmas a mãe segura de seios grandes e quadris-alicerce. da praia ao sertão e de regresso mimetizada no mangue. sou uma térmite do dia-a-dia, casa no ar e pés no chão, grão e fruta para o inverno. sou um goiamum: buraco onde me guardo que protege o mundo dos meus tenazes. há a bicharia que me faz lembrar que a terra é boa porque nos aconchega. há o húmus, a minha fé. há a praia ao pé de nós, um mar que lambe os pés da terra que nos dá de comer.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

aquática IV

Viajo. Sou uma molécula de plâncton a alimentar as veias da estrada. Acumulo verbos, palavras carentes como bairro-de-lata. Frentes de coração, dintéis armados em fitas de cores bravas. Conto e reconto. Luto. Quando a estrada me leva, dou em almadia. Não contorno os ventos: deixo. Vivo. Consigo. Desconsigo. Nasço.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

aquática III

Sou aquática. Sei como nadares-me. Também o mar é bravo, às vezes. Mas eu surfo-me nas ondas da emoção. Assumo o comando da verdade nua. Batem as águas com o sol. Entre as profundezas frescas e o céu se levanta um templo de beleza. É o olho do furacão e a calma do recife. É o compasso da espera, a cadeira de baloiço na varanda, a noite, os jardins ocultos que esperam passos para ver o fulvo acontecer.

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

aquática II

atravesso-me, antes como rio. como rio nasço à verdade de esperar por uma margem aonde me desças. aonde embarques numa almadia que reconduza as águas perdidas. e nela descobrir correntes novas. profundas. carregadas de palavras e plâncton. como rio surjo do quase-nada branco de uma rocha ou uma gota de chuva até crescer em pedras e plantas aquáticas que se elevam para a tua embarcação,  protegendo-te de jacarés e quedas.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

aquática

paira o véu do sono na cabeceira cama. que tem marcas, nuvens azuis onde os teus sonhos ficaram presos como nas teias dos índios americanos. é agosto; é noite. tomamos a direção do músculo fulcral ou a do trilho torto. há quem escolha a dor mas nada me detém perante os meus braços porque sei onde me nascem as raízes, aquáticas, do nós. nada tem tanta força como o silêncio; nada tem tanta paciência como o inverno.

escolher

saltar em altura sobre as águas do amor. decidir. escolher o vácuo, o sempre em frente. o tempo. a música. a dança. as almas vivem vidas próprias, mas habitam corpos. há as distâncias, os mares, os rios, as montanhas. a comida. os tempos do sono, as praias. as montanhas, de novo, há tantas. há o kilimandjaro, por exemplo. a encosta onde deslizei uma noite, brilho turquesa ou esmeralda, as águas primígenas, mãe que me brune braços e vontades. as da força, não as do desejo. há caminho por fazer. penso: caminho parece com carinho. por vezes guardo as pedras que me fazem lembrar paisagens. por vezes deito-as fora, e sigo. sempre em frente, ao caminho. ao carinho.

varanda II

Volto à varanda. No rodapé habitam escondidas palavras que partilhamos um dia. Palavras que talvez fiquem a morrer aqui, lembradas dos lábios que as proferiram e não são mais. Talvez palavras que caíram das folhas que manuseávamos como agora cai a noite húmida sobre a erva lá fora. A última noite, que anuncia um tempo novo. Oiço os grilos, as rãs. O verão esplêndido vai-se em dias e fogo. Enquanto isso, passa uma locomotiva que aperta o passo para levantar o tempo que nos afastou. Ao longe, o choro de uma criança, o latido de um cão. Gosto de pensar que sabem de nós. Ou então: do vazio. Os animais entendem de passados. Aqui, nesta varanda, nós fomos nós. Aqui a tarde era morna e lembrava vozes e músicas. Aqui conjugámos um dia verbos em presente, e advérbios sem tempo como 'agora' ou 'enquanto'. Sei que as músicas nunca mais vão tocar assim. As músicas são como as uvas, devem ser colhidas quando a estação acaba. Como o outono, o longe está para chegar. Como o dia, está tudo por nascer, por compreender. Como a noite de hoje na varanda, sei que este é o último poema.