A Chávena de Humanidade


O Cháismo é um culto baseado na adoração do que é belo entre os factos sórdidos da existência diária. (...) É uma tentativa terna de atingir algo possível nesta coisa impossível a que chamamos vida.

El teísmo es un culto basado en la adoración de lo que es bello entre los hechos sórdidos de la existencia diaria. (...) Es un intento tierno de alcanzar algo posible en esta cosa imposible a la que llamamos vida.

Kakuzo Okakura

sábado, 22 de junho de 2013

reverte

reverte. sente entre as tuas mãos o que não houve. toca os instrumentos da voz escondida. não procures, apenas encontra o que o clima te ofereça. junho adiantou um inverno e tu estavas com a cabeça em março. por isso: corre, veste as roupas da mulher antiga. corre atrás dos coelhos e as crianças. a todos eles deves agradecer o sono profundo que dormes cada noite. dá um passo atrás do outro, cada pé a seu tempo, cada lua a seu vento.

terça-feira, 11 de junho de 2013

francos

voávamos
na forma de fumo de lumes antigos
e entradeceres por chegar

quanto nos recusamos para hoje ter tanto para dar
para ouvir

somos a sombra alegre de um quase
uma letra por desenhar
o primeiro traço de um pictograma
que abre todas as possiblidades do espaço

somos o hexagrama do balde
o vazio que espera
apenas dá forma ao que chega
quatro mãos que desenham um aconchego
de palavras adiadas

atravessávamos o mar na altura certa
mas depois comíamos algas
como animais marinhos nos procurávamos nas profundezas
do outro

foi aí que esquecemos que o sol ficava longe
foi aí que nos tornámos lulas
foi aí que a nossa língua tentacular e mole
se desfez em distâncias e silêncios
borbulhas que subiam em direção à luz
que não enxergávamos

mergulhar é que nos fez fortes
encheu-nos os pulmões da verdade por onde transitamos hoje
e assim na distância somos próximos como irmãos
disponíveis como amantes
francos como a língua que falamos

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Tratado da indiferença II

II


queria a penugem da mãe mas
não sei pensar
só sei sentir
frio


queria chamar mas
há um corpo seco deitado no chão
não sei pensar
só sei sentir
frio


sábado, 1 de junho de 2013

Tratado da Indiferença I



O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença.

Érico Veríssimo




O que me assusta não são as ações e os gritos das pessoas más, mas a indiferênça e o silêncio das pessoas boas.

Martin Luther King

I

arrastam-nos
como águas dos rios mas este feito em gritos
é tanto corpo sobre corpo
como quando nascíamos
mas agora há frio
e não sinto o cheiro da mãe
cadê os mamilos, o leite

este rio quente é o meu sangue
afogo
cadê a mãe

este homem calado que me olha
porta uma coisa brilhante
cadê a mãe

segunda-feira, 27 de maio de 2013

praça forte

praça forte. elos que se nos prendem aos pés com que caminhamos como acorrentados. serve-nos o baton ou o mel, tudo, para acender os faróis do talvez e correr em direção ao novo precipício que inventamos para justificar a queda. não sentimos tanto como queríamos porque não entregamos tanto como poderíamos. é a sorte do caloiro que o leva ao saber, à virgindade essencial do pensamento, o momento antes do parto, o que nunca foi criado como verdade mas como fruto do acaso. é uma gravidez sem razão, um caminhar sem ser nunca nascido porque nascemos um pouco antes de chegar e vamos culpando o espaço e o tempo pelas nossas decisões. daí a praça forte, o calvário a que condenamos os outros, aos berros, aos murros ou calados dentro de nós, condenando ou absolvendo. que é o mesmo. assim nos defendemos, assim criamos os caminhos por onde os outros nos podem transitar ou não, assim voltamos uma e outra vez à mesma crença que sustenta o que pensamos ser. a identidade, essa crendice. a praça forte onde começar a dividir o mundo, as bandeiras, as línguas, a vida, a verdade, o espaço, o tempo, a casa, os nomes dos ventos. e é que a culpa, achamos, é sempre do nordês.

terça-feira, 21 de maio de 2013

onde

onde crescem as ligaduras que remedeiam o que não foi. onde habitam todos os sonhos, esse ninho onde dorme o que sabemos e está por descobrir. onde adormecem os cabelos das sereias que nos olham do futuro. onde conversam os golfinhos no seu idioma de sinos e calêndulas. onde nos sentamos a contemplar como o mundo é atravessado de vagas azuis e verdes. onde descansamos num banco de jardim submerso num mar que nos permite respirar caladamente ao ritmo do silêncio dos crustáceos. onde as nossas mãos se tocam e os sorrisos parecem olhares de namorados jovens. onde todos esquecemos o tesouro que trazemos guardado nas palmas das mãos enquanto batemos na vida a punho fechado. onde tu disseste que eu era uma pedra branca e eu me arremessei contra as tuas têmporas inadvertidas. onde tudo foi mas nada faz lembrar porque o verde calado em que mergulhamos quando há sal e luz nos embala o rosto e nem é preciso tocar a pele do outro para o sentir colado.

domingo, 19 de maio de 2013

hacha

rendirse. esparcir por el suelo del mercado todos los palos que arrojamos. incluso las piedras que hemos tirado contra nuestro tejado para justificar adioses y medias tintas. no me quedan piedras en el bolsillo más que para tallar un hacha que parta en dos las mentiras, las máscaras, las espaldas, y las dirija contra el fuego más calcinante. ni de las cenizas hemos de aprovechar más que para alimentar al mar. que la ceniza guarda el adn y la tierra hoy es confusa. he decidido parir despedidas. iniciar el funeral de mis palabras guardadas. porqué tener sueños cuando se puede tener vida. por qué tener sueños cuando podemos pisarlos y escuchar el grito del otro sin sentir su hielo, su miedo. el cuerpo de los otros es nuestro cuerpo, y nuestra música desafina porque una voz se calla u olvida o ignora o desprecia. porque una contralto quiere ser soprano. la peor forma de traición es la de no obedecer a nuestra naturaleza verdadera. lo único que el cielo no perdona es la soberbia. en ella acunamos a los demás para despertarlos después en medio de la noche, solos y oscuros como un túnel donde hemos olvidado no sólo las sandalias, sino también el camino.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Derrúmbate

Derrúmbate.

Sacrifica todos los ayeres.
Viájate hacia ninguna parte.
Juega con todos los huecos que has dejado. Sé un hueco.

Afloja los andamios donde escondiste coches o muñecas.
Nadie necesita el dolor.

Salta en los charcos mientras corres hacia dentro de cada minuto,
espiral abajo.
Huelga decir que no recuerdas adónde vas.
No sabes por dónde te diriges. 

Cada paso que hundes en la arena difusa del nadie
te conduce entre plumas,
entre alas agitadas, huellas blancas,
lácteos caminos que olvidaste.

No te dejes seducir por el mañana.
No te dejes arrastrar por el ayer.
Levanta la arena del tiempo y siéntela caer entre los dedos,
entre los dientes, entre las risas y los silbidos,
entre las ventanas que fuiste y las que quisiste.

Bájate del estrado de tu yo.
Júntate a las hierbas cuyos nombres ignoras.
Se está tan bien entre los bichos.

Entre verdes, olores y antenas.
Acuérdate de ser una piedra,
caliente cuando hace sol,
fría cuando nieva.

Acuérdate de ser una hoja,
y podrás descomponerte.

Acuérdate de ser lo que hay.
De sentir las gracias sin lenguaje,
de ver pasar el agua y los pasos
y saber estar, callar, esperar.

Acuérdate.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

vivas

brancas ou largas como coxas
exatas como matemática
experientes como estatística
graves como pena da dó - bemol
eternas como chamas do inferno
próximas como futuro
irrecuperáveis como ontem
mortas como petroglifos
sinuosas como meandros
difusas como nevoeiro em londres
fracas para missão como um quixote
largas como avenidas em maio
acolhedoras como sopa da avó
breves como soluço
semeadas como húmus em janeiro
decompostas como corpos em agosto

mas vivas como filhote amamentado

palavras

sábado, 11 de maio de 2013

borderline

decidir seguir viviendo
contra todos los diagnósticos
la inteligencia no es la salsa de los libros pero
no ser tonta no siempre es bueno

dejarse llevar
pero no si nos llevan los demonios
que bajo la cama alimentamos por años
escondidos de la gente, de las manos
que alegremente saludaban a la ventana

decidir seguir muriendo
a cada momento
decidir seguir sabiendo que no hay vuelta atrás
no hay remedio

la sombra de un viejo ciprés nos acompaña
y en él se mece la serpiente del saber
el ignorar, el olvidar, el conocer

no sé
pero no saber no es suficiente
no soy
pero no ser no es coherente
abro las puertas a las palabras
pero escapan como en noviembre
las hojas de arce


aún no ha vuelto el otoño
pero qué más da si olvidaremos cada hoja
cada rama que nos tapó el sol en agosto
y aún así, seguirá doliendo ese agujero interno

porque el vacío es nada y hace saltar los ojos
porque hoy ya es tarde para colar los lodos
porque no hay algodón para esa herida que sangra
porque no hay sangre para esa boca que mana

por eso la hora es adoquinar aceras nuevas
por eso no me mezco en memoria adulterada
por eso ni me duermo ni abrazo el drama